vida_icon

Filhos na hora certa

Matéria muito interessante da revista Vida Simples sobre como saber qual é a melhor época para se ter filhos.

Filhos na hora certa

Como saber qual é a melhor época para se ter filhos? Algumas histórias e reflexões podem ajudar a responder a essa pergunta e fazer você repensar sua decisão

Por Liane Alves

Karina Lawrence tem 30 anos, é bióloga e trabalha como pesquisadora no laboratório de Metabolismo da Célula Tumoral da Universidade de São Paulo. Depois de quatro anos de faculdade, fez mestrado por dois anos e está acabando o doutorado, que durou quatro. Podia se dar por satisfeita. Humm,mas quem sabe fazer só mais um pós-doutorado de um ano e meio? É só mais um pouquinho. Aliás, para dizer a verdade, não existe apenas só um pós-doutorado. São vários, em diversas áreas. Quanto mais, melhor. É justamente aí, durante os pós-doutorados, que acontecem os convites ao exterior, a possibilidade de melhores empregos, bolsas bem remuneradas na área de pesquisa de ponta. Fazendo as contas, pode ser que essa história termine quando Karina tiver 33 anos – ou mais. É quando ela planeja ter um filho. Isto é, pelo menos uns dez anos depois da época biologicamente indicada para a mulher começar a procriar, segundo os médicos especialistas no assunto.

A história de Karina mostra a realidade de muitas outras mulheres que, pelos mais variados motivos, estão postergando o momento de ter filhos. Umas, por razões profissionais. Outras, por questões financeiras – para muitas delas, terminar as prestações do apartamento tornou-se mais urgente que ter crianças correndo pela casa. E uma boa parte, por não ter encontrado uma relação estável ou um companheiro que deseje formar uma família. Sem contar aquelas, ainda não muitas, que pretendem tocar a vida sem provar o gosto da maternidade.

Acompanhando o percurso de suas companheiras ou decidindo-se pela paternidade só na segunda ou terceira união conjugal, muitos homens também tornam-se pais mais tarde. Ou simplesmente decidem que não querem ter filhos. Ser pai ou mãe tornou-se opcional.

Esse fato causou uma mudança profunda na sociedade, tão grande que ainda é difícil mensurar. Qual a diferença entre essa nova mulher, que pode optar entre ser ou não ser mãe ou mesmo planejar a época de ter filhos, e a mulher que se realizava somente por meio da maternidade?

Para o filósofo Renato Janine Ribeiro, pensador particularmente envolvido com a contemporaneidade, até há pouco tempo a vida da mulher brasileira se compunha de estágios sucessivos e, de certa forma, irreversíveis.“ O casamento era indissolúvel e a moça, depois de se expor por certo tempo ao mercado conjugal, era colhida pelas teias sucessivas do casamento, da maternidade e, depois, da condição de avó”, diz. Isto é, se ela entrava na chuva, era para se molhar: não dava para voltar atrás e escolher uma melhor hora para engravidar ou até optar por não ter filhos. Depois de se casar, a maternidade para a mulher era imediata e quase obrigatória. “O mais interessante hoje é o fato de se poder escolher, por exemplo, entre ser mãe aos 18 e profissional aos 28, ou profissional aos 25 e mãe aos 35 – quer dizer, a sucessão de comportamentos sem alternativa e sem volta está acabando”, afirma Renato.

Tudo ao mesmo tempo

O problema é que essa liberdade de escolhas está ligada a algo muito atraente, mas perigoso como dinamite: o sonho (de homens e mulheres) de que se pode ter tudo na vida ao mesmo tempo. “Atualmente a mulher quer ser mãe, profissional de sucesso, boa esposa e ótima amante. O homem quer ser pai e marido presente, profissional empenhado na carreira e ainda ter tempo suficiente para praticar hobbies, viajar e aproveitar a vida. Na prática, isso é difícil. Quase insustentável”, diz o pensador.

O preço desse sonho inatingível é muita angústia e ansiedade. Se a mulher escolhe a carreira, sabe que tem um reloginho interno biológico que lhe diz que pode estar passando a melhor época para ter filhos sem maiores riscos. Se um homem escolhe ser pai no meio de sua ascensão profissional, terá problemas em conciliar as viagens ou atividades com sua presença em casa, ao lado da mulher e das crianças. Ainda mais hoje em dia, quando o pai tem consciência de que tem de participar mais da criação dos filhos.

A poeta mineira Adélia Prado, ao falar da multiplicidade dos papéis femininos, escreveu um dia que “mulher é desdobrável”. O homem de hoje certamente também é. “Grande parte dos homens já sabe que seu papel não é mais apenas o do provedor externo, e que não pode deixar as tarefas domésticas só com a mulher. Mas isso, se dá mais trabalho, também dá mais orgulho, mais companheirismo.É um grande ganho”, afirma Renato. Sabendo disso, fica ainda mais difícil para ele optar somente pela profissão.

O ideal… o ideal?

Muitos casais de classe média que se preparam para ser pais esperam alcançar uma condição ideal para receber as crianças – que parece nunca chegar. Para boa parte deles, esse cenário perfeito consiste em ter apartamento próprio, dois carros, bons rendimentos, união estável, realização profissional e sensação de já ter aproveitado suficientemente a vida de casal ainda sem filhos. De um lado, isso é bom. “Para ter filhos, é preciso já ter encontrado seu lugar no mundo”, diz Beatriz Vidigal, psicóloga especializada em terapia de casais. Em outras palavras, é saudável, sim, buscar uma base firme antes de ter filhos, embora seja provável que uma boa estrutura só seja alcançada depois dos 30 ou mesmo a caminho dos 40 anos. Mas também é prudente admitir que perfeição não existe e que não é preciso esperar por uma situação superideal para se ter uma criança.

Além disso, um bebê não deve vir ao mundo só porque esteja faltando o toque final de uma estrutura perfeita, a cereja em cima do sorvete, coroando a relação. “Filho não é para preencher lacuna”, diz Beatriz. Portanto, não é para aliviar o tédio do casal quase perfeito, afastar a solidão de uma mulher sozinha, muito menos para perpetuar uma linhagem familiar. Esses motivos são egocêntricos e pouco indicados quando se pensa em ter uma criança porque, ao contrário, em vez de razões egoístas, ela exigirá muita generosidade e desprendimento de seus genitores.

O filho terá de ser colocado em primeiro lugar em muitas decisões, com sacrifício dos pais, inclusive. “Egoístas não são bons pais, pois não sabem se doar. Para ter filhos, é preciso estar maduro psicologicamente, reconhecer o conceito de alteridade. Isto é, que uma criança tem existência própria, necessidades próprias, e que não é, em absoluto, uma continuação de nós mesmos”, diz a psicanalista.

Depois, a vida tem surpresas. Nada é garantido, muitas vezes é inútil planejar tanto. Antigamente se dizia que cada criança vinha com sua trouxinha, que não é necessário se preocupar tão desesperadamente com a sua sobrevivência. Certo, com os salários de babás de hoje, mensalidades de escolas e cursos paralelos (inglês, judô, ginástica), a trouxinha pode alcançar o tamanho de um contêiner. Mas, se formos muitos frios e racionais com relação ao assunto, perdemos a oportunidade de dar um crédito de confiança à vida.

Ver matéria no site da revista Vida Simples

Compartilhe este artigo

Este site usa cookies para garantir que você obtenha a melhor experiência em nosso conteúdo.